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Valor, o novo nome do jogo

por | 01/06/2014 | Sustentabilidade

Artigo publicado originalmente na revista Opiniões, no. 36, jun-ago 2014.

O enfoque atual das questões socioambientais insere-se numa evolução contínua da forma de como interagimos com bens naturais e sociais. Podemos focar em vários pontos da história da humanidade e encontraremos elementos dessa natureza. O fim da escravidão e a grande crise da produção de trigo na América do Norte, nos séculos XVIII e XIX, são dois exemplos.

Nos últimos 20 anos, experimentamos a rica ascensão da sociedade civil organizada nos debates e na governança mundial, suprindo lacunas da ineficiência dos mecanismos globais e da democracia em várias partes do mundo. Concordando ou não com o ativismo ambiental do Greenpeace e outras ONGs, é inegável que essas organizações trouxeram temas extremamente relevantes para o debate mundial.

Em um zoom temporal entre a consolidação do conceito de sustentabilidade, do final do século XX aos dias de hoje, passamos do mapeamento de temas socioambientais relevantes ao difícil exercício de sua aplicação no dia a dia empresarial. Já não é concebível que executivos deixem de usar o arsenal básico que lhes permita conhecer, evitar, reduzir, mitigar ou compensar impactos negativos ao meio ambiente, a seus funcionários ou a comunidades em que se insiram. São inúmeros os exemplos de danos reputacionais por práticas inadequadas em cadeias de suprimento.

A mídia cobre e divulga amplamente, no mundo todo, marcas associadas a práticas nocivas ao meio ambiente, a empregados, a populações. Podemos dizer que o “livro de boas práticas” socioambientais está escrito, disponível e conta com um volume substantivo e crescente de casos práticos.

O tema hoje tem outra dimensão. Afeta modelos de negócios. Dos departamentos de Responsabilidade Social Corporativa, em grande parte ligados à área de Recursos Humanos, foi alçado às diretorias com dedicação exclusiva à sustentabilidade. E continua sua viagem hierarquia acima, atingindo o topo da estrutura organizacional. O assunto chegou aos conselhos de acionistas e à comunidade de investidores.

O “como fazer a sustentabilidade acontecer”, tema provocado pelos editores da Revista Opiniões, passa por essas instâncias. Uma nova linguagem vem se consolidando. A palavra-chave é “valor”. O mundo empresarial, incluindo acionistas e investidores, percebeu que ações das empresas geram impactos, positivos e negativos, que vão além dos produtos e resultados financeiros.

Impactos sempre foram evidentes, em maior ou menor grau. Apenas não eram considerados nas métricas econômicas. O adjetivo “intangível” serviu amplamente para, em certa medida, justificar a falta de atenção a esses impactos. Se era intangível, não se media, não virava prioridade, não entrava nas planilhas de metas, não afetava remuneração, não era considerado estratégico, não se incorporava nas valorações.

A sofisticação da discussão sobre esses impactos aumentou muito. Iniciativas como certificações e reporting, FSC – Forest Stewardship Council, na área florestal, e GRI – Global Reporting Initiative, no campo dos relatórios de sustentabilidade, serviram para instrumentalizar práticas empresariais. Os danos reputacionais em empresas como Nike e BP, apenas para citar dois casos, foram traduzidos em perdas econômicas significativas.

O sistema financeiro incluiu em suas práticas de due diligence riscos socioambientais, tornando a alavancagem financeira dependente, em grande parte, de boas práticas relacionadas à sustentabilidade. Mais, evoluiu de um sistema de avaliação de riscos – negative screening – para identificação de oportunidades – positive screening. No kit de ferramentas de gestão, adicionaram-se os relatórios de sustentabilidade e cuidados para documentar práticas voltadas para evitar ou reduzir passivos ao meio ambiente.

A inserção do mundo financeiro nesse jogo teve desdobramentos no campo da contabilidade. Como evolução dos relatórios de sustentabilidade, surgiu o conceito de relatório integrado. O IIRC – International Integrated Reporting Council publicou as bases do que deverá ser a contabilidade num futuro próximo. Do alicerce em dois capitais, o financeiro e o da produção, o Relatório Integrado incorpora mais quatro capitais.

O intelectual, associado a ativos como marcas e capacidade de inovação, há algum tempo no radar das empresas de contabilidade. A questão da reputação entra nessa categoria. O capital humano passa a ser explicitado, com enfoque no valor dos recursos humanos de uma organização. Também bastante reconhecido, este capital não era tratado como ativo.

As boas práticas de RH, o valor de esforços de treinamento e retenção de talentos passam a ser tratados de forma mais explícita. E surgem duas novas categorias de capital. Um deles, capital social, trata não só dos impactos da atividade da empresa no ambiente que a cerca, mas também da chamada “licença social para operar”.

Lida com a capacidade da empresa em se articular com seus stakeholders, em estabelecer relacionamentos além de sua base operacional, em obter endosso da sociedade, muitas vezes através de certificações independentes e voluntárias. Por fim, o capital natural, abordando não só o que a empresa consome de ativos naturais, mas também o valor de impactos positivos na conservação de ecossistemas, recursos hídricos, minerais e climáticos.

De uma maneira geral, trata-se de uma visão mais ampla (óbvia, diga-se de passagem), das externalidades causadas pela ação empresarial. Torna mais tangíveis efeitos na natureza e na sociedade. Facilita a tradução desses efeitos no valor das empresas. Ao desenvolvimento do relatório integrado juntam-se organizações como GISR – Global Initiative for Sustainability Ratings, PRI – Principle of Responsible Investments e outras instituições das áreas de rating, seguros, investimentos, além de grande mobilização das empresas de consultoria, como PWC, EY, KPMG e Deloitte.

Ícones da estratégia empresarial, como Michael Porter, lançam iniciativas como Valor Compartilhado em artigos na Harvard Business Review, amplamente festejados. Empresas líderes em seus segmentos, como a Puma, lançam seus balanços ambientais – EP&L –, pavimentando metodologias de contabilidade ampliada.

Liderado por Pavan Sukhdev, o braço ambiental da ONU lançou as bases para o TEEB ou Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade. Nos EUA, crescem significativamente os modelos empresariais alinhados ao Sistema B, uma classe de corporação com requerimento formal e estatutário para criar impactos positivos na sociedade e no meio ambiente, com standards específicos de contabilidade e transparência, expansão das responsabilidades fiduciárias para incorporação de interesses não financeiros e verificação por terceira parte independente.

Inexoravelmente, acionistas, investidores e conselhos passam a lidar com o assunto, incorporando-o em suas decisões de modelos de negócios. Recentemente, um dos ícones do mundo empresarial, o CEO da Unilever, Paul Polman, publicou artigo desafiando líderes empresariais a não só lidar com questões como integridade, inteligência, conhecimento e dedicação, mas incorporar a habilidade de focar no longo prazo, de ter uma causa, de pensar sistemicamente e trabalhar de maneira mais transparente e em parcerias.

O desafio se estende a fundos de pensão, responsáveis por grande parte dos investimentos globais, com revisão de como lidam com decisões de investimentos e incentivos a seus gestores no longo prazo. O conceito de externalidades e seu impacto nas valorações desses empreendimentos deve ser levado em conta.

Retomando o desafio proposto pela Revista Opiniões, as questões socioambientais estão acontecendo. E esse acontecer está sendo fortemente impulsionado pelo mundo econômico, financeiro e contábil. É daí que surgem os elementos que faltavam para que capitais naturais e sociais sejam traduzidos em valor.

Mais do que isso, com uma visão ampla de valor, que vai além da simples monetização, mas incorporando elementos morais e reputacionais, traduzidos em riscos e oportunidades de negócios. De certa forma, é a chamada nova economia se consolidando. Para as empresas, o como fazer depende não apenas de incorporar os instrumentos amplamente disponibilizados para a boa gestão operacional e comercial, mas também de passar a lidar seriamente com as questões socioambientais no âmbito de suas instâncias financeiras e de governança.

[Foto: Iva Castro/Pixabay]

 

ROBERTO S. WAACK

É membro dos conselhos da Marfrig, Wise Plásticos, WWF Brasil, Instituto Ethos, Instituto Ipê e Instituto Arapyaú e visiting fellow do Hoffman Center da Chatham House (Londres). Tem uma longa carreira como executivo e como empreendedor, tendo atuado em empresas nas áreas farmacêutica, de biotecnologia e florestas. Foi CEO da Fundação Renova, entidade responsável pela reparação do desastre de Mariana (MG), co-fundador e CEO da Amata S.A. e CEO da Orsa Florestal, além de diretor da Boehringer Ingelheim e Vallée. S.A. É cofundador da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Atuação profissional com concentração em governança, planejamento e gestão estratégica, gestão tecnológica&inovação e sustentabilidade. Formado em biologia e mestre em administração de empresas pela USP.

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