Em artigo publicado no Estadão em 27 de agosto de 2026, Roberto Waack defende a importância, para os segmentos da agropecuária competitivos e ambientalmente comprometidos, do rigor científico na aplicação de metodologias de aferição de integridade climática. Esse rigor, porém, precisa ser adaptado à realidade tropical, alerta.
A SBTi (Science Based Targets Initiative), por exemplo, estabelece diretrizes para as empresas alcançarem suas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa de forma alinhada ao Acordo de Paris, e tem sido um instrumento relevante de gestão de riscos em cadeias complexas como a da pecuária.
Essa complexidade é apresentada da seguinte forma: mais de 90% das emissões das companhias do setor estão no escopo 3, relativo à cadeia de suprimentos. Dessas emissões, a maior parte (acima de 80%) é FLAG (Forest, Land and Agriculture), ou seja, vinculada diretamente à mudança e ao uso do solo – por exemplo, a forma como o produtor cria os animais e maneja o solo.
Para empresas que já atingiram o compromisso de desmatamento zero, o desafio que resta é reduzir as emissões de metano, liberado pelo sistema digestivo do gado, que responde por aproximadamente 50% das suas emissões.
Enfrentar esses desafios traz oportunidades no mercado. No entanto, essa busca por uma produção eficaz e sustentável gera uma demanda, segundo Roberto, por metodologias de mensuração adequadas à realidade da agropecuária tropical.
A SBTi, por exemplo, basicamente utiliza parâmetros globais e em práticas de produção da Europa e dos Estados Unidos. Além disso, considera as reduções de emissões em termos absolutos (o que é relevante), mas desconsidera a importância do aumento de produtividade com menor emissão por volume de alimento gerado, ou seja, se a produção da carne ou leite foi feita com menos emissão por tonelada ou por hectare. “Essa abordagem coloca em xeque a adesão a práticas sustentáveis amplamente reconhecidas pela ciência e por políticas públicas. A realidade da produção tropical indica que as duas vertentes deveriam ser contempladas”, afirma Roberto.
Outro desafio metodológico está na forma como se dá a comercialização de gado no país: o produtor negocia livremente com os frigoríficos, e a base de fornecedores muda constantemente, ano após ano. Por isso, a forma de rastreabilidade demandada pela SBTi não funciona, pois essas mudanças constantes de fornecedores fazem com que o ponto de partida das mensurações com o momento de seu cálculo não seja o mesmo, trazendo incongruências metodológicas relevantes.
Finalmente, é preciso levar a dimensão social em consideração. A pecuária no Brasil é uma das poucas atividades viáveis em regiões de baixa renda. “Regras para a validação da produção sustentável incompatíveis com a realidade da produção tropical trazem o risco de expulsar da legalidade e da formalidade os produtores que mais precisam de apoio para evoluir.”
Roberto afirma que não se está pedindo para questionar a relevância ou flexibilizar as metodologias de iniciativas como a SBTi. Pelo contrário. O que é preciso é ainda mais rigor científico, com metodologias que incorporem a realidade dos sistemas tropicais.
Leia o artigo completo aqui.
[Foto: Matheus Lara/Pexels]

