O Brasil demonstrou capacidade diplomática e avançou na construção de uma arquitetura institucional consistente para a bioeconomia. Isso pode ser visto em políticas nacionais, como a Estratégia Nacional e o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, e no protagonismo que exerceu sobre o tema no G20 e na COP 30. Mas ainda não transformou essa liderança em escala produtiva, crédito e investimento. O país precisa organizar os recursos já existentes e melhorar o acesso a eles.
Esses são alguns dos pontos de destaque do artigo de Marcelo Furtado, head de Sustentabilidade da Itaúsa, Luana Maia, diretora da NatureFinance no Brasil, Rachel Biderman, diretora das Américas na Conservação Internacional (CI), Marcelo Behar, Enviado Especial para a Bioeconomia da COP30, e Roberto Waack, publicado no Valor Econômico em 30 de outubro de 2026.
Os autores defendem que a bioeconomia precisa se tornar uma política de Estado para que o país transforme sua vantagem comparativa em vantagem competitiva.
Para avançar nessa direção, há duas medidas que estão ao alcance do poder público: a reorganização dos recursos que a União já aplica e a simplificação das métricas para mensurar e valorar a natureza. São iniciativas que não exigem aumento de gastos e já podem gerar resultados no curto prazo, afirmam os autores.
O potencial é expressivo: o Fórum Mundial de Bioeconomia estima a bioeconomia global em cerca de US$ 4 trilhões, e um estudo da Associação Brasileira de Bioinovação com a Embrapa Agroenergia calcula que o setor pode acrescentar US$ 284 bilhões por ano ao faturamento industrial brasileiro até 2050.
Sociobioeconomia, bioindustrialização e produção sustentável de biomassa já são realidades no país, mas é necessário direcionar crédito e criar condições para ampliar o mercado.
Segundo os autores, o Brasil já demonstrou capacidade de reorganizar recursos e ações em torno de um objetivo estratégico. Um exemplo é o Proálcool, programa federal que articulou pesquisa, tecnologia, políticas públicas e crédito para estruturar e desenvolver essa indústria de biocombustível.
Uma iniciativa semelhante poderia ser feita em torno da bioeconomia, a começar pelo mapeamento dos instrumentos de incentivo e subsídio existentes, eliminação de sobreposições e incentivos contraditórios e adoção de referências comuns de desempenho. Dessa forma, crédito, seguro e garantia passariam a reconhecer e favorecer práticas comprovadas, como a recuperação de pastagens e o plantio direto.
As referências comuns que os autores mencionam são métricas da natureza que poderiam ser simplificadas, focando em aspectos como carbono, área protegida ou restaurada, água, solo e integridade da vegetação. Essas referências ajudariam a encontrar uma linguagem comum entre governo, bancos, seguradoras, produtores e investidores. Também contribuiriam para acessar mercados externos. Na prática, destacam, “trata-se de fazer atributos hoje invisíveis entrarem no cálculo de risco e no custo do capital”.
“Organizar melhor recursos que já existem e tornar o capital natural legível para quem produz, financia, investe e assume riscos são medidas fiscalmente responsáveis e capazes de transcender governos”, afirmam os autores.
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[Foto: Towfiqu barbhuiya/Unsplash]

