A partir de um artigo de Chandrakant Singh e Ulf Martin Persson, cientistas da Chalmers University of Technology na Suécia, que trata da relação entre o desmatamento e o agronegócio, Roberto discute como é importante ouvir os pecuaristas e considerar a heterogeneidade do setor quando se fala nesse assunto. Sem esse reconhecimento e diálogo, não há como avançar nas agendas de clima, proteção à natureza e segurança alimentar, afirma ele, em artigo publicado no Estadão em 29 de outubro de 2026
O texto de Singh e Perssoon, intitulado Global patterns of commodity-driven deforestation and associated carbon emissions (publicado no Nature Food), indica, entre outros pontos, que no período de 2001 a 2022 o desmatamento associado a pastagens representou 42% do total, sendo o Brasil responsável por cerca de 63% de todo o desmatamento mundial atribuído à carne bovina. As informações ganharam mais visibilidade por meio de uma publicação do Our World Data, Beef production in Brazil has been the largest driver of global deforestation in recent decades. A abordagem é em tom mais ativista, e não faz distinção entre desmatamento legal e ilegal.
A sutil transformação de uma abordagem científica em algo mais ativista chama atenção de Roberto. As evidências de que a conversão de florestas em pastagens teve papel central no desmatamento amazônico são robustas, mas a generalização e condenação do setor da carne bovina não joga luz sobre os diferentes desafios que existem e dificulta encontrar soluções. Por exemplo, estudos do Imazon e Ipam, entre outros, apontam uma forte associação entre desmatamento e insegurança fundiária.
O estudo realizado por Singh e Persson também indica que a maior parte da pressão histórica atribuída à carne brasileira vem do mercado doméstico (85%), que é atendido por uma diversidade de indústrias.
“Nenhuma das duas publicações tangencia o que talvez seja o ponto mais importante: a participação dos próprios pecuaristas na compreensão da relação entre produção bovina e uso da terra. As diferentes histórias e estratégias de desenvolvimento dos territórios explicam por que a pecuária brasileira assume formas tão distintas”, afirma.
Nesse contexto, Roberto aponta a relevância da iniciativa Vozes da Pecuária. Criada em 2025, ela mobilizou centenas de pecuaristas em oito estados e traduziu a voz dessas pessoas em documentos que endereçam a identidade de dez territórios produtores da maior parte da carne bovina do Brasil.
A iniciativa mostra como regiões como Alta Noroeste Paulista, Alto Médio Araguaia, Amazônia Oriental Paraense, Corredor do Boi, Matopiba, Oeste Baiano, Pantanal, Rondônia e Cáceres e Trindade do Mato Grosso são geográfica, econômica e socialmente distintas.
Os principais desafios dessas regiões são apresentados, como necessidade de capital para intensificação da produção, assistência técnica, questões sanitárias, vulnerabilidades climáticas, infraestrutura logística, conectividade, questões tributárias, relação com conservação ambiental, conflitos sociais, concentração de mercado, condições de agregação de valor, capacidade de coordenação de cadeias e impacto em rastreabilidade e o componente geracional.
As matrizes também apresentam compromissos dos pecuaristas e pactos com governos e mercado, além do engajamento com o desenvolvimento econômico e social de suas regiões, associado à conservação ambiental e à agenda climática.
Para Roberto, “o Brasil tem muitos exemplos de práticas que estão na fronteira do que há de melhor na relação entre produção, regeneração e conservação”. Por isso, é importante fugir de generalizações e estar disponível para o diálogo. “A escuta ativa de produtores é o caminho para a alavancagem da agenda climática e da natureza”, conclui.
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[Foto: Helena Lopes/Pexels]

