Texto publicado no Relatório Anual 2025 – O Eterno Esperançar, do Instituto Arapyaú.
Roberto Waack – Presidente do Conselho do Instituto Arapyaú
O exercício de olhar para 2025 não deixa dúvida: a COP30 no Brasil, em plena floresta amazônica, fez história. Em um mundo de multilateralismo em xeque, o encontro não permitiu grandes avanços nas negociações entre países — mas isso não diminuiu sua relevância. Pelo contrário. A conferência de Belém apontou uma inflexão importante ao incentivar o mundo a falar menos de COPs e mais de soluções concretas para enfrentar a crise climática e a perda acelerada de recursos naturais.
A COP30 evidenciou uma passagem de bastão da agenda de clima e natureza de um ambiente predominantemente diplomático para a sociedade como um todo. Fora das salas de negociação, surgiram iniciativas capazes de conectar o mundo produtivo, o conhecimento técnico e as políticas públicas em torno de caminhos concretos de transformação.
A proposta de fortalecer uma Agenda de Ação foi um passo importante nessa direção. Impulsionados pela presidência da conferência, estudos setoriais voltados aos temas de florestas, agronegócio, mobilidade e energia reforçaram a constatação de que as soluções já existem, mas precisam ganhar escala.
Foi nesse contexto que o Instituto Arapyaú ampliou sua atuação e consolidou seu papel como articulador entre sociedade civil, setor empresarial e governos, ajudando a aproximar diferentes perspectivas e a organizar debates sobre temas estratégicos para o país — sempre de forma coletiva e em diálogo com o Brasil e com o mundo.
Essa atuação responde, em grande medida, ao tempo em que vivemos.
Durante décadas, tomamos decisões em um mundo que, apesar das incertezas, ainda permitia algum grau de previsão. Era um mundo probabilístico. Modelos, cenários e projeções não eram perfeitos, mas ofereciam indicações razoáveis de tendência. Era possível imaginar o futuro com alguma antecedência e desenhar estratégias relativamente estáveis.
Hoje vivemos algo diferente, um mundo possibilístico. Um ambiente em que as projeções têm cada vez menos capacidade de antecipar caminhos e em que múltiplos futuros permanecem abertos ao mesmo tempo. A geopolítica, a transição energética, a segurança alimentar, o avanço da inteligência artificial e as transformações no comércio global se movem em velocidade e com um grau de imprevisibilidade que contestam os instrumentos tradicionais de planejamento.
O desafio não é mais prever o futuro com precisão, mas desenvolver a capacidade de interpretar contextos em tempo real e reagir com agilidade. E isso exige outro tipo de inteligência. Uma inteligência mais aberta à diversidade de perspectivas, mais disposta a experimentar e mais preparada para aprender com o erro. Exige também uma combinação menos rígida entre racionalidade e intuição — algo que, durante muito tempo, permaneceu à margem dos modelos tradicionais de governança e tomada de decisão.
É justamente nesse contexto que a filantropia ganha uma relevância particular.
Em tempos possibilísticos, a liberdade própria da filantropia de explorar caminhos, testar hipóteses e apoiar ideias antes que elas se tornem consensos, é valiosa. A filantropia pode assumir riscos, experimentar, errar e aprender. Pode testar conceitos, validar caminhos e catalisar processos que, depois, ganham escala por meio de políticas públicas ou da ação de outros setores.
Sua força não está na escala direta de atuação, mas na capacidade de ampliar o espaço do possível. Em um tempo em que o futuro já não pode ser descrito por projeções e modelos, abrir caminhos passa a ser tão importante quanto executar soluções.
Conectar, experimentar, aprender rapidamente e agir em rede — essas passam a ser competências centrais para enfrentar os desafios do nosso tempo. E é justamente nesse espaço, onde incerteza e possibilidade se encontram, que a filantropia pode exercer um de seus papéis mais transformadores.
[Foto: capa do Relatório Anual 2025. Nino Andrés]

